Vladímir Ilich Uliánov LENINE
Que fazer?
Problemas candentes do nosso
movimento
III
POLÍTICA TRADE-UNIONISTA E POLÍTICA SOCIAL-DEMOCRATA
Começaremos mais umha vez por um elógio à Rab. Dielo. «Literatura de denúncia e luita proletária» é o título com que Martínov encabeça no n.°10 da Rabótcheie Dielo um artigo sobre as divergências com o Iskra. «Nom nos podemos limitar a denunciar o estado de cousas que entrava o seu desenvolvimento (do partido operário). Devemos igualmente fazer-nos eco dos interesses imediatos e quotidianos do proletariado» (p. 63). Assim formulava ele a essência destas divergências. «... o lskra... é de facto um órgao de oposiçom revolucionária que denuncia o estado de cousas reinante no nosso país e sobretudo o estado de cousas político... Em contrapartida, nós trabalhamos e trabalharemos pola causa operária, em estreita ligaçom orgánica com a luita proletária» (Ibid). Nom podemos deixar de agradecer a Martínov esta formulaçom. Ela adquire um relevante interesse geral, porque, no fundo, nom só abarca as nossas divergências com a R. Dielo, mas também, de umha maneira geral, todas as divergências entre nós e os «economistas» no que di respeito à luita política. Mostramos já que os «economistas» nom negam em absoluto a «política», mas que se desviam constantemente da concepçom social-democrata para a concepçom trade-unionista da política. É exactamente assim que se desvia Martínov, e por isso nos dispomos a tomá-lo como espécime dos erros «economistas» em relaçom com a esta questom. Procuraremos demonstrar que ninguém poderá atirar-nos à cara esta escolha: nem os autores do Suplemento Separado do «Rab. Misl», nem os autores da própria reclamaçom do «Grupo de Auto-Emancipaçom», nem os autores da carta «economista» publicada no n.° 12 do Iskra.
a) A agitaçom política e a sua restriçom polos economistas
Ninguém ignora que a luita económica 66 dos operários russos se expandiu em vasta escala e se fortaleceu paralelamente ao aparecimento da «literatura» das denúncias económicas (referentes às fábricas e às profissons). O conteúdo principal das «folhas volantes» consistia em denunciar a ordem de cousas existente nas fábricas, e entre os operários depressa se manifestou umha verdadeira paixom por estas denúncias. Quando os operários vírom que os círculos dos social-democratas queriam e podiam fornecer-lhes folhas volantes de novo tipo, que lhes diziam toda a verdade sobre a sua vida miserável, o seu trabalho incrivelmente penoso e a sua situaçom de párias, começárom a chover, por assim dizer, cartas das fábricas e das empresas. Esta «literatura de denúncias» produziu umha enorme sensaçom, nom só nas fábricas cujo estado de cousas fustigava, mas ainda em todas as fábricas onde chegavam notícias dos factos denunciados. E umha vez que as necessidades e os sofrimentos dos operários de diferentes empresas e ofícios tenhem muito de comum, a «verdade sobre a vida operária» entusiasmava a todos. Entre os operários mais atrasados desenvolveu-se umha verdadeira paixom «por aparecer em letra de forma», paixom nobre por essa forma embrionária de guerra contra toda a ordem social moderna, baseada na pilhagem e na opressom. E as «folhas volantes», na imensa maioria dos casos, eram de facto umha declaraçom de guerra, porque a denúncia exercia umha acçom terrivelmente excitante, levava todos os operários a reclamar que se pugesse fim aos abusos mais flagrantes e dispunha-os a defender as suas reivindicaçons por meio de greves. Os próprios donos das fábricas, no fim de contas, tivérom de reconhecer até tal ponto a importáncia destas folhas volantes como declaraçom de guerra que amiudadas vezes nem sequer queriam aguardar a própria guerra. As denúncias, como sempre acontece, ganhavam força polo simples facto de aparecerem, adquirindo o valor de umha poderosa pressom moral. Mais do que umha vez, bastou o aparecimento de umha folha volante para que as reivindicaçons fossem satisfeitas total ou parcialmente. Numha palavra, as denúncias económicas (das fábricas) foram e continuavam a ser umha alavanca importante da luita económica. E conservarám esta importáncia enquanto subsistir o capitalismo, que gera necessariamente a autodefesa dos operários. Nos países europeus mais avançados, pode observar-se, ainda hoje, como a denúncia das condiçons escandalosas de trabalho nalgumha «indústria artesanal» situada num lugar remoto ou nalgum ramo de trabalho ao domicílio esquecido de todos se converte em ponto de partida para despertar a consciência de classe, para dar início à luita sindical e à difusom do socialismo 67.
A esmagadora maioria dos social-democratas russos estivo nestes últimos tempos quase inteiramerlte absorvida por esse trabalho de organizaçom das denúncias nas fábricas. Basta recordar o caso do Rab. Misl para ver até que ponto chegou esta absorçom e como se tinha chegado a esquecer que esta actividade por si só nom era ainda, no fundo, social-democrata, mas apenas trade-unionista. Na realidade, as denúncias diziam unicamente respeito às relaçons dos operários de umha dada profissom com os seus respectivos patrons, e nom tinham outro resultado do que o de ensinar aqueles que vendiam a sua força de trabalho a vender mais vantajosamente esta «mercadoria» e a luitar contra os compradores no terreno de umha transacçom puramente comercial. Estas denúncias podiam converter-se (com a condiçom de serem utilizadas num certo grau pola organizaçom dos revolucionários) em ponto de partida e elemento integrante da actividade social-democrata; mas também podiam conduzir (e com o culto da espontaneidade tinham forçosamente de conduzir) à luita «exclusivamente sindical» e a um movimento operário nom social-democrata. A social-democracia dirige a luita da classe operaria nom só para obter condiçons vantajosas de venda da sua foça de trabalho, mas para que seja destruído o regime social que obriga os nom possuidores a venderem-se aos ricos. A social-democracia representa a classe operária nom só na sua relaçom com um dado grupo de patrons, mas também nas suas relaçons com todas as classes da sociedade contemporánea, com o Estado como força política organizada. Compreende-se portanto que os social-democratas nom só nom podam circunscrever-se à luita económica, como nem sequer podam admitir que a organizaçom das denúncias económicas constitua a sua actividade predominante. Devemos empreender activamente o trabalho de educaçom política da classe operária, de desenvolvimento da sua consciência politica. Hoje em dia, depois da primeira investida da Zariá e do Iskra contra o «economismo», «todos estám de acordo» com isso (embora alguns o estejam só em palavras, como o veremos em seguida).
Cabe perguntar: em que deve consistir a educaçom política? É possível limitá-la à propaganda da ideia de que a classe operária é hostil à autocracia? Naturalmente que nom. Nom basta explicar a opressom política da que som objecto os operários (tal como nom bastava explicar-lhes o antagonismo entre os seus interesses e os dos patrons). É necessário fazer agitaçom a propósito de cada manifestaçom concreta desta opressom (como começamos a fazer para as manifestaçons concretas de opressom económica). E umha vez que as mais diversas classes da sociedade som vítimas desta opressom, umha vez que se manifesta nos mais diferentes aspectos da vida e da actividade sindical, cívica, pessoal, familiar, religiosa, científica, etc., nom é evidente que nom cumpriremos a nossa missom de desenvolver a consciência política dos operários se nom nos comprometermos a organizar umha campanha de denúncias políticas da autocracia em todos os aspectos? Porque, para fazer agitaçom a propósito das manifestaçons concretas da opressom, é necessário denunciar estas manifestaçons (da mesma maneira que tal como para fazer a agitaçom económica era necessário denunciar os abusos cometidos nas fábricas).
Diria-se que a cousa está clara. Mas o que precisamente se verifica é que só em palavras «todos» estám de acordo quanto à necessidade de desenvolver a consciência política em todos os seus aspectos. O que se verifica é que, por exemplo, a Rab. Dielo nom só nom empreendeu o trabalho de organizar denúncias políticas em todos os aspectos (ou começar a sua organizaçom), como até se pujo a puxar para trás o Iskra, que já tinha iniciado esta tarefa. Ouvim: «A luita política da classe operária é apenas» (precisamente, nom é apenas) «a forma mais desenvolvida, mais ampla e mais efectiva da luita económica» (programa da Rab. Dielo, R. D., n.° 1, p. 3). «Presentemente, aos social-democratas coloca-se a tarefa de imprimir à própria luita económica, dentro do possível, um carácter político» (Martínov, no n.° 10, p. 42). «A luita económica é o meio mais amplamente aplicável para integrar as massas na luita política activa» (resoluçom do Congresso da «Uniom e «emendas»: Dous Congressos, pp. 11 e 17). A Rab. Dielo, como o leitor vê, desde o seu aparecimento até às últimas «instruçons à redacçom», está impregnada destas teses, que em conjunto exprimem, evidentemente, umha mesma concepçom da agitaçom e da luita políticas. Analisade, pois, esta concepçom do ponto de vista do critério dominante entre todos os «economistas» de que a agitaçom política deve seguir a agitaçom económica. Será certo que a luita económica é em geral 68 «o meio mais amplamente aplicável» para integrar as massas na luita política? Isto é falso de ponta a ponta. Medidas nom menos «amplamente aplicáveis» para tal «integraçom» som todas e quaisquer manifestaçons da opressom policial e dos desmandos da autocracia e de modo algum apenas as manifestaçons ligadas à luita económica. Por que razom os zémskie natchálniki 69 e os castigos corporais infringidos aos camponeses, a corrupçom dos funcionários e a maneira como a polícia trata a «plebe» das cidades, a luita contra os famintos, a perseguiçom às aspiraçons do povo à cultura e ao saber, a exacçom de impostos, a perseguiçom dos membros das seitas religiosas, a dura disciplina do chicote imposta aos soldados e o regime de caserna a que som obrigados os estudantes e os intelectuais liberais, por que razom todas estas manifestaçons de opressom, assim como milhares de manifestaçons idênticas, que nom tenhem ligaçom directa com a luita «económica», ham de representar, em geral, meios e motivos menos «amplamente aplicáveis» à agitaçom politica, para integrar as massas na luita política? Antes polo contrário: no conjunto total dos casos quotidianos em que o operário sofre (ele próprio e as pessoas que lhe som próximas) privaçom de direitos, arbitrariedade e violência, é indiscutível que os casos de opressom policial precisamente no terreno da luita sindical nom constituem senom umha pequena minoria. Para quê entom restringir de antemao a amplitude da agitaçom política declarando como «mais amplamente aplicável» só um dos meios, ao lado do qual, para um social-democrata, se devem colocar outros que, falando em geral, nom som menos «amplamente aplicáveis»?
Em tempos muito, muito remotos (há já um ano! ...) a Rab. Dielo dizia: «As reivindicaçons políticas imediatas tornam-se acessíveis às massas depois de umha greve ou, no máximo, de várias greves», «logo que o governo empregue a polícia e a gendarmeria» (n.° 7, p. 15, Agosto de 1900). Agora esta teoria oportunista dos estádios foi rejeitada pola Uniom, que nos fai umha concessom, declarando: «nom há qualquer necessidade de desenvolver desde o próprio início a agitaçom política exclusivamente no terreno económico» (Dous Congressos, p. 11). Só por si, este repúdio pola «Uniom» de umha parte dos seus antigos erros mostrará ao futuro historiador da social-democracia russa, melhor que os mais longos raciocínios, até que ponto os nossos «economistas» aviltárom o socialismo! Mas que ingenuidade a da Uniom ao imaginar que, a troco desta renúncia a umha forma de restriçom da política, nos poderia levar a aceitar umha outra forma de restriçom! nom teria sido mais lógico dizer, também aqui, que se deve desenvolver a luita económica o mais amplamente possível, que é preciso utilizá-la sempre para a agitaçom política, mas que «nom era de maneira algumha necessário» considerar a luita económica como o meio mais amplamente aplicável para integrar as massas numha luita política activa?
A Uniom considera importante o facto de ter substituído polas palavras «o meio mais amplamente aplicável» a expressom «o melhor meio», que figura na correspondente resoluçom do IV Congresso da Uniom Operária Judaica (Bund) 70. Na verdade, ficaríamos embaraçados se tivéssemos que dizer qual destas duas resoluçons é melhor: na nossa opiniom som as duas piores. Tanto a Uniom como o Bund caem neste caso (em parte, talvez mesmo inconscientemente, sob a influência da tradiçom) numha interpretraçom economista, trade-unionista da política. No fundo, a questom em nada se altera, quer se empregue a denominaçom «o melhor», quer se empregue a expressom «o mais amplamente aplicável». Se a Uniom dixesse que «a agitaçom política no terreno económico» é o meio mais amplamente aplicado (e nom «aplicável»), teria razom em relaçom com a certo período do desenvolvimento do nosso movimento social-democrata. Teria razom precisamente no que di respeito aos economistas, no que di respeito a muitos (se nom à maior parte) dos militantes práticos de 1898-1901, umha vez que estes militantes práticos-«economistas» aplicárom, de facto, a agitaçom política (tanto quanto, em geral, a aplicavam!) quase exclusivamente no terreno económico. Semelhante agitaçom política era aceite e até recomendada, como vimos, tanto polo Rab. Misl como polo «Grupo de Auto-Emancipaçom»! A Rab. Dielo devia ter condenado resolutamente o facto de a obra útil de agitaçom económica ter sido acompanhada de umha restriçom nociva da luita política, mas, em vez de o fazer, declara que o meio mais aplicado (polos «economistas») é o meio mais aplicável! nom é de estranhar que quando damos a esta gente o nome de «economistas» nom encontrem outra saída do que a de nos insultar, a mais nom poder, chamando-nos «mistificadores», «desorganizadores», «núncios do papa», «caluniadores» 71, de se lamentarem perante toda a gente dizendo que lhes figemos umha afronta mortal, e de declarar, quase sob juramento, que «nem umha única organizaçom social-democrata peca hoje de «economismo» 72. Ah, esses caluniadores, esses homens maus, esses políticos! nom terám eles inventado de propósito todo esse «economismo» para inflingir às pessoas, por simples ódio à humanidade, afrontas mortais?
Que sentido concreto, real, tem na boca de Martínov o facto de colocar à social-democracia a tarefa de «imprimir à própria luita económica um carácter político»? A luita económica é a luita colectiva dos operários contra os patrons, para conseguirem condiçons vantajosas de venda da força de trabalho, para melhorarem as suas condiçons de trabalho e de vida. Esta luita é, necessariamente, umha luita profissional, porque as condiçons de trabalho som extremamente variadas nas diferentes profissons, e, portanto, a luita pola melhoria destas condiçons deve, forçosamente, ser travada por profissons (por sindicatos no Ocidente, por associaçons profissionais de carácter provisório e por intermédio de folhas volantes na Rússia, etc.). «Imprimir à própria luita económica um carácter político» significa, portanto, procurar a satisfaçom dessas mesmas reivindicaçons profissionais, dessa mesma melhoria das condiçons de trabalho em cada profissom por intermédio de «medidas legislativas e administrativas» (como se exprime Martínov, na página seguinte, 43, do seu artigo). É precisamente o que fam e sempre figérom todos os sindicatos operários. Lede a obra dos esposos Webb, profundos conhecedores (e «profundos» oportunistas), e veredes que os sindicatos operários ingleses desde há muito compreendêrom e cumprem a tarefa de «imprimir à própria luita económica um carácter político»; que desde há muito luitam pola liberdade de greve, pola supressom de todos os obstáculos jurídicos que se oponhem ao movimento cooperativo e sindical, pola promulgaçom de leis de protecçom à mulher e à criança, pola melhoria das condiçons de trabalho mediante umha legislaçom sanitária e industrial, etc.
Deste modo, a frase pomposa «imprimir à própria luita económica um carácter político», que soa de maneira «terrivelmente» profunda e revolucionária, dissimula, no fundo, a tendência tradicional para rebaixar a política social-democrata ao nível da política trade-unionista! Sob o pretexto de corrigir a unilateralidade do Iskra, que considera mais importante –vejam só– «revolucionar o dogma do que revolucionar a vida» 73, oferecem-nos, como algo de novo, a luita polas reformas económicas. De facto, a frase «imprimir à própria luita económica um carácter político» nada mais contém do que a luita polas reformas económicas. E o próprio Martínov poderia ter chegado a esta simples conclusom se tivesse meditado devidamente no significado das suas próprias palavras. «O nosso partido –di ele, apontando a sua artilharia mais pesada contra o Iskra– poderia e deveria apresentar ao governo reivindicaçons concretas de medidas legislativas e administrativas contra a exploraçom económica, contra o desemprego, contra a fame, etc.» (R. D., n.° 10, pp. 42-43). Reivindicar medidas concretas nom é por acaso reivindicar reformas sociais? E perguntamos umha vez mais aos leitores imparciais se caluniamos os rabotchediélentsi 74 (perdoem-me este pouco feliz vocábulo em voga!) por os qualificarmos de bernsteinianos encapotados quando avançam, como divergência com o Iskra, a tese da necessidade da luita por reformas económicas.
A social-democracia revolucionária sempre incluiu e continua a incluir no quadro das suas actividades a luita polas reformas. Mas usa a agitaçom «económica» nom só para exigir do governo toda a espécie de medidas, mas também (e em primeiro lugar) para exigir que ele deixe de ser um governo autocrático. Além disso, considera seu dever apresentar ao governo esta exigência, nom só no terreno da luita económica, mas também no terreno de todas as manifestaçons em geral da vida política e social. Numha palavra, subordina, como a parte ao todo, a luita polas reformás à luita revolucionária pola liberdade e o socialismo. Martínov, polo contrário, ressuscita sob umha forma diferente a teoria dos estádios, ao receitar necessariamente a via económica, por assim dizer, de desenvolvimento à luita política. Preconizando, num momento de ascenso revolucionário, a luita polas reformas como umha pretensa «tarefa» especial, arrasta o partido para trás e fai o jogo do oportunismo, tanto «economista» como liberal.
Prossigamos. Depois de ter ocultado pudicamente a luita polas reformas atrás da pomposa tese «imprimir à própria luita económica um carácter político», Martínov apresenta, como algo de particular, unicamente as reformas económicas (e mesmo unicamente as reformas na vida fabril). Nom sabemos porque o fijo. Talvez por descuido? Mas se nom tivesse tido em conta senom as reformas «fabris», toda a sua tese, que acabamos de expor, perderia por completo o sentido. Talvez porque considere possível e provável que o governo faga «concessons» apenas no domínio económico 75? Se assim é, estamos perante um erro estranho: as concessons som possíveis e fam-se também no domínio da legislaçom sobre os castigos corporais, passaportes, pagamento de resgates 76, seitas religiosas, censura, etc. As concessons «económicas» (ou pseudoconcessons) som, entende-se, os meios mais baratos e mais vantajosos para o governo, porque espera ganhar com eles a confiança das massas operárias. Mas, por isso mesmo, nós, social-democratas, nom devemos de modo algum e absolutamente por nengum motivo dar lugar à opiniom (ou ao mal-entendido) de que apreciamos mais as reformas económicas, de que consideramos de particular importáncia justamente estas reformas, etc. «Estas reivindicaçons –di Martínov, referindo-se às reivindicaçons concretas de medidas legislativas e administrativas, de que fala mais atrás– nom seriam um simples gesto, umha vez que, ao prometer certos resultados tangíveis, poderiam ser apoiadas activamente pola massa operária»... Nom somos «economistas», oh! nom! Simplesmente ajoelhamo-nos aos pés da «tangibilidade» dos resultados concretos, tam servilmente como o fam os senhores Bernstein, Prokopóvitch, Struve, R. M. e tutti quanti! Somente damos a entender (com Nartsisse Tuporílov) que tudo o que nom «promete resultados tangíveis» nom é mais do que umha «frase oca»! nom fazemos mais do que nos exprimir como se a massa operária nom fosse capaz (e como se nom tivesse provado a sua capacidade, apesar de todos os que lhe atribuem o seu próprio filistinismo) de apoiar activamente todo o protesto contra a autocracia, incluindo o que nom lhe promete absolutamente nengum resultado tangível!
Tomemos, quanto mais nom seja, esses mesmos exemplos citados polo próprio Martínov sobre as «medidas» contra o desemprego e a fame. Enquanto a Rabótch. Dielo se ocupa, segundo promete, em elaborar e desenvolver «reivindicaçons concretas (sob a forma de projecto de lei?) de medidas legislativas e administrativas» que «prometem resultados tangíveis», o Iskra, «que invariavelmente considera mais importante revolucionar o dogma do que revolucionar a vida», tratou de explicar a relaçom indissolúvel entre o desemprego e todo o regime capitalista, advertindo que «vem a fame», denunciando «a luita contra os famintos» pola polícia, bem como o escandaloso «regulamento provisório de trabalhos forçados», e a Zariá publicou como folheto de agitaçom umha parte da sua Revista da Situaçom Interna dedicada à fame. Mas, meu Deus, como fôrom «unilaterais» esses ortodoxos incorrigivelmente estreitos, esses dogmáticos surdos aos imperativos da «própria vida»! Nem um único dos seus artigos contém –que horror!– umha única, notade bem, nem sequer umha única «reivindicaçom concreta» que «prometa resultados tangíveis»! Infelizes dogmáticos! Haveria que mandá-los aprender com os Kritchévski e os Martínov, para que se convencessem de que a táctica é o processo do crescimento, do que cresce, etc., e que é preciso imprimir à própria luita económica um carácter político!
«A luita económica dos operários contra os patrons e o governo («luita económica contra o governo»!!), além do seu significado revolucionário directo, tem também o de levar os operários a pensar, constantemente, na sua falta de direitos políticos» (Martínov, p. 44). Inserimos esta citaçom nom para repetir pola centésima ou milésima vez o que já dixemos mais atrás, mas para agradecer muito especialmente a Martínov esta nova e excelente formulaçom: «A luita económica dos operários contra os patrons e o governo.» Formidável! Com que talento inimitável, com que magistral eliminaçom de todas as divergências parciais e diferenças de matizes entre os «economistas», se encontra aqui expressa, numha exposiçom concisa e clara, toda a essência do «economismo», começando com o apelo aos operários para a «luita política que travam em nome do interesse geral, para melhorar a situaçom de todos os operários» 77, continuando depois com a teoria dos estádios e acabando na resoluçom do Congresso sobre o «meio mais amplamente aplicável», etc. «A luita económica contra o governo» é precisamente política trade-unionista, que está a umha distáncia muito grande, mas mesmo muito grande, da política social-democrata.
[66] A fim de evitar interpretaçons erradas fazemos notar que, na exposiçom que se segue, entendemos sempre por luita económica (segundo o uso estabelecido entre nós), a «luita económica prática» que Engels, na citaçom apresentada mais atrás, chamou «resistência aos capitalistas» e que, nos países livres, se chama luita profissional, sindical ou trade unionista.
[67] Neste capítulo falamos unicamente da luita política, na sua concepçom mais ampla ou mais restrita. Por isso, assinalaremos apenas de passagem e a título de curiosidade a acusaçom lançada pola Rab. Dielo contra o Iskra de «abstençom excessiva» em relaçom com a luita económica (Dous Congressos, p. 27, repisada por Martínov na sua brochura A Social-Democracia e a Classe Operária). Se os senhores acusadores medissem (como gostam de fazer) em puds ou em folhas impressas a secçom do Iskra dedicada à luita económica durante o ano, e comparassem com a mesma secçom da Rab. Dielo e da Rab. Misl reunidos, logo veriam que, mesmo neste sentido, estám atrasados. É evidente que a consciência desta simples verdade força-os a recorrer a argumentos que mostram nitidamente a sua confusom. «O Iskra – escrevem eles – quer queira, quer nom queira(!), é obrigado(!) a ter em conta as exigências imperiosas da vida, e a inserir polo menos (!!) cartas sobre o movimento operário» (Dous Congressos, p. 27). Este sim, é de facto um argumento que nos deixa verdadeiramente aniquilados!
[68] Dizemos «em geral», porque a Rab. Dielo trata precisamente dos princípios gerais e das tarefas gerais de todo o partido. Certamente, na prática, dam-se casos em que a política deve seguir, de facto, a economia, mas só os «economistas» podem dizer isto numha resoluçom destinada a toda a Rússia. Pois há também casos em que, «desde o próprio início», se pode levar a cabo a agitaçom política «unicamente no terreno económico», e, contudo, a Rabótch. Dielo chegou por fim à conclusom de que isso «nom era de maneira algumha necessário» (Dous Congressos, p. 11). No capítulo seguinte assinalaremos que a táctica dos «políticos» e dos revolucionários, longe de desconher as tarefas trade-unionistas da social-democracia, é, polo contrário, a única que assegura a sua realizaçom conseqüente.
[69] Em 1899, com o propósito de reforçar o poder dos latifundários sobre os camponeses, o governo tsarista instituiu o cargo administrativo de Zémski natchálnik. Os zémskie natchálniki, designados entre os latifundiários, nobres locais, tinham nom só enormes atribuiçons administrativas, mas também direitos judiciais sobre os camponeses, incluindo o direito de os encarcerar e submeter a castigos corporais. (N. Ed.)
[70] A Uniom Geral Operária Judaica da Lituánia, Polónia e Rússia (Bund) foi organizada em 1897 no congresso constituinte dos grupos social-democratas judeus em Vilno. No I Congresso do POSDR (1898), o Bund passou a fazer parte do POSDR como «umha organizaçom autónoma, apenas independente nas questons referentes especificamente ao proletariado Judeu». No II Congresso do POSDR, tendo este rejeitado as exigências do Bund de ser reconhecido como único representante do proletariado judeu, o Bund abandonou o partido. Em 1906, de acordo com a resoluçom do IV Congresso (de Unificaçom), o Bund voltou a fazer parte do POSDR. No seio do POSDR os bundistas opugérom-se à linha bolchevique. (N. Ed.)
[71] Assim se exprime literalmente a brochura Dous Congressos, pp. 31, 32, 28 e 30.
[72] Dous Congressos, p. 32.
[73] Rab. Dielo, n.° 10, p. 60. Esta é a variante martinoviana da aplicaçom ao actual estado caótico do nosso movimento da tese «cada passo do movimento real tem mais importáncia que umha dúzia de programas», aplicaçom que já analisamos mais atrás. No fundo, nom é mais do que a traduçom russa da famosa frase de Bernstein: «O movimento é tudo, o objectivo final nom é nada.»
[74] Partidários da Rabótcheie Dielo. (N. Ed.)
[75] P. 43: «Naturalmente, se recomendamos aos operários que formulem ao governo certas reivindicaçons económicas, fazemo-lo porque no domínio económico o governo autocrático está disposto, por necessidade, a fazer certas concessons.»
[76] Pagamentos de resgates: pagamentos que, segundo o «Regulamento» de 19 de Fevereiro de 1861 sobre a aboliçom da servidom na Rússia, os camponeses tivérom de fazer a favor dos latifundiários polos lotes de terra que recebiam. A soma dos pagamentos de resgastes superou em muito o valor real dos lotes de terra dos camponeses e atingiu aproximadamente dous mil milhons de rublos. Os camponeses, ao fazer os pagamentos de resgates, no fundo pagavam aos latifundiários nom só a terra há muito lavrada por eles, mas também a sua própria libertaçom. Os pesados pagamentos de resgates provocárom a ruína e a pauperizaçom em massa dos camponeses. O movimento camponês no período da primeira revoluçom russa (1905-1907) obrigou o governo tsarista a abolir os pagamentos de resgates a partir de Janeiro de 1907. (N. Ed.)
[77] Rab. Misl, Suplemento Separado, p. 14.